24.11.09

Notas para V. nº2

Quando um paizinho dorme para sempre, ele não atende mais o telefone, não aparece no portão, não adianta chamá-lo pelo nome ou dizer que é dia de futebol. É que quando um paizinho dorme para sempre, ele fica espalhado no mundo, em todas as coisas pequenas, e a gente precisa de muita delicadeza para encontrá-lo de volta.

No começo, a gente só o encontra nos suspiros da mãe, nos olhos do cachorro esperando no portão, na cadeira vazia, no remendo do armário, no prego segurando o quadro, na garrafa de vinho, pela metade. Aos pouquinhos e devagar, a gente começa a encontrá-lo nas alegrias do mundo, no vôo das cotovias, no desenho das nuvens formando barquinhos e caravelas,  numa pessoa sem mágoa, na toalha sem nódoa, e até quando felizes nossos olhos vão se enchendo d'água...


23.11.09

Notas para V. nº1

...Eu sei que agora a sua vida está um pouco bagunçada, amontoada num canto. Eu sei também, minha querida, que desde que seu pai partiu, o mundo escapou do seu eixo e se inclinou de tal forma que você perdeu o equilíbrio, enquanto móveis, memórias e quadros escorregavam com toda força, espatifando-se contra a outra parede. Sobretudo eu sei que, nessas horas, é difícil agarrar-se nas bordas dessa porta que chamamos vida, agarrar-se firme e não soltar! Quem me dera escrever essas cartas numa pedra gigante, e empilhá-la no outro canto do mundo, para que ele se realinhasse, e você pudesse caminhar sobre ele sem cair. Ah, quem me dera não precisar das palavras! Simplemente, poder atravessar aquele corredor como antes e te abraçar.



20.11.09

Fragmentos

Eu sei, de vez em quando vem a guerra porque não somos somente paz. Mas escute, amor: a guerra é lá fora, contra quem quiser pisar na sua cabeça. Eu não quero. Eu sou fraca. O amor é fraco. O amor já se entregou. E se isso não tiver graça, eis a hora de partir, pois não é amor o que você procura. Eu só posso lhe oferecer a experiência assustadora e aterrorizante de ser amado.

E se existe alguma guerra é essa: meus dedos em sua pele, delicadamente, arrancando da superfície o que nem você gostaria de ver em si mesmo. Pois está vendo esses dedos? São eles que fazem carinho quando o mundo nos dá vontade de encolher num canto do sofá e dormir chorando... O Outro não pode amar aquilo que Eu não legitimo, não pode! Essa é a guerra! O risco de descobrir-se sem vestes, fraco, humano como qualquer outro, e ainda assim amado. É tão exposto quanto nascer, e não saber como será o mundo... assim como, nu e frágil, não saber o peso daqueles olhos em você.

Hoje eu quis inventar uma outra palavra, não pena. Que em pena a perspectiva é vertical. Em pena, sou eu olhando para baixo, e eu uma outra que traduzisse assim: eu olhando para dentro. Então eu assisto àquilo, olhando um cadáver ainda morno e digo sim, sim, ele tinha dentes muito bonitos, sim. Mas não fui eu que inventei a morte, não fui, a culpa não é minha. Eles dizem: alimente-se bem, beba pouco, não fume. Não fui eu que inventei isso de a morte entrar pela boca. É uma lei natural. Tudo o que é só corpo, pele ou matéria está se desgastando: o guarda-roupa, a Brigitte Bardot, tudo.

Então, o que se salva senão o intangível, senão os gestos que construímos em silêncio, de olhos fechados? E de olhos fechados, sonhei que você voltava dessa guerra e entrava embaixo de minhas cobertas: era o lugar mais quente depois que nada disso importava mais. Eu te abraçava bem forte, sem nada perguntar, porque o modo como você aquecia os meus pés friorentos era mais bonito do que tudo, tudo.

15.11.09

Aula de piano

Todos os pianos são banguelas e, no dente que falta, insistem na pausa que fala. Espero a aula começar, meu pai no saguão, lendo o jornal. Levanto a tampa do piano e o piano sorri, sabendo de todos os meus pecados. Seu imenso sorriso, branco e vago, implorando algum som. Mas eu não sei te tocar, disseram meus dedos. E o piano odiou, deixando a pesada tampa cair. O piano estrondo, rancoroso da última vez em que o professor me puxou para junto da partitura enquanto eu me sentava sobre as três oitavas. O piano rancoroso da última vez em que ele deixou de tocá-lo para me. Não a tampa, mas o meu longo vestido. Não as teclas, mas o anteparo de minhas coxas, que não se queriam parar. Meus dedos trêmulos tentando fá alcançar, enquanto o professor tentando lá. Sustenido, fez quase sol e as partituras dizendo-lhe pausa de oito tempos! Pausa de oito tempos! Deixa-me respirar! Mas o professor ao piano, desamarrando as cinco linhas do pentagrama e as amarrando em minhas mãos. Como é possível: meu próprio corpo a benzer o que minha cabeça entende por pecado? E quando eu não pude mais, os seus lábios toquei, sobre as oitavas eu. Já reparou como o orgasmo é, silenciosamente, agudo? Implodi. Suaves estilhaços. Cuidado, as colcheias têm pontas. Há música dentro de mim fá sol. Meus dedos agarrando-se às teclas do piano. Os seus dedos agarrados aos meus. Sim, meu pai, hoje tocamos a quatro mãos.

7.11.09

A história de Pimpe V - diante da TV

What does Marsellus Wallace look like?
Enquanto a menina não chegava e não chegava, Pimpe assistia à televisão, mas ficava ainda mais desesperado porque nunca pegava uma boa notícia. Então, ele pedia para a Borboleta-de-Móbile ajustar a antena.
- E agora, Pimpe, melhorou?
- Ônibus tomba na pista e fere dezoito...
Ela mudava a antena para o outro lado:
- E agora, Pimpe, melhorou?
- Menino bate no colega e bota fogo na escola...
Ela mudava de novo e de novo:
- E agora, Pimpe, melhorou?
- Agora apareceu um filme, mas o cara tá meio nervoso... Boneca-de-pano, você acha que a menina já cresceu? Você acha que ela já foi comprar maquiagem? Você acha que ela não volta mais nunca, nunca mais, nunca mais mesmo?
- Ai, Pimpe, de novo essa história!

6.11.09

prolepse

Eu nunca sei quando vai aparecer, mas sempre sei quando ele aparece. Ele é um pouco magro ou um pouco isso, feito quem não soube dizer não ao tempo, que sequer resistiu. Ou ele tem as mãos inquietas segurando um jornal. Ou mastiga pedindo licença. Varre os cílios sobre o meu olhar, quando deveria fitar-me e dizer: meta-se com a sua vida. Mas ele não diz. Ele desvia para baixo do banco uns sapatos que me inspiram ternura. Eu gosto de olhar para ele até o momento em que ele tenta se ajeitar na cadeira. Ninguém poderá salvá-lo. O segurança está ali só para os casos de violência explícita, mas - os meus olhos pousando escuros sobre esse homem - isso é permitido por lei ou, ao menos, não proibido por nenhuma delas. Por mais que ele enxugue a testa. Por mais que os seus cílios nervosos tentem esvoaçar os meus.

4.11.09

A história de Pimpe IV - Pimpe sumiu

Foi quando eu não achei mais o Pimpe! Procurei em todos os lugares: embaixo da cama, atrás do sofá, dentro do armário... e nada. Eu querendo continuar essa história para todo o Brasil, a menina quase voltando da escola, mas nenhum sinal do boneco-de-lata. Ele simplesmente havia desaparecido! Comecei a perguntar aos leitores:

-Ei pessoal, por acaso vocês não viram um boneco assim, mais ou menos gordo, de olhos esbugalhados, uma perninha assim e outra assado, e quatro dentões enormes que vão da boca até o pescoço, vocês não viram?

Olha, não deu um minuto e Pimpe apareceu de dentro do cesto de lavar roupa, enrolado num lençol e dizendo:


- O quê?! Olhos esbugalhados... a tua vó! E pode falar pra eles aí que eu não sou o monstro dessa história, eu não sou monstro nenhum, eu não sou, eu não soooou!

- Calma, Pimpe! É óbvio que você não é, tanto porque eu ainda nem sei escrever histórias de monstros! Essa é só a história de um boneco-de-lata que tinha medo do mundo...

3.11.09

Do outro lado do guarda-roupa

Às vezes, existe isso no mundo: um guarda-roupa separar dois quartos, duas experiências. E foi assim que eu conheci o Alexandre: quando abria a porta do meu guarda-roupa e ouvia as suas risadas e histórias, que passavam a ser um pouco minhas também, enquanto eu sorria ao escolher o vestido. Às vezes, acontece isso no mundo: um guarda-roupa ser infestado de cupins, cupins que trabalham dia e noite para aproximar um pouco mais as pessoas. E tal como esses danados, eu quis desfazer algumas paredes e compartilhar com vocês um pouco mais do meu querido vizinho. Afinal, aos amigos de PoA, tem peça em cartaz!

"Não podemos expressar tudo o que pensamos por inteiro, todas as nossas percepções, cor por cor, assim como não sabemos, muitas vezes, os motivos das nossas escolhas. Creio que amo o teatro pela sua beleza (e feiúria), pelas possibilidades de descobertas, de experimentar e 'experienciar' vivências que não são nossas, mas que acabam sendo. Eu o amo também pelo risco que ele envolve e, consequentemente, pela virtude de vencer o risco, ao final de cada apresentação. Acredito no teatro por toda sua riqueza, complexidade e seu potencial comunicativo. Acredito na emoção. Acredito muito em nosso trabalho, que nos trouxe muitos questionamentos e amadurecimento profissional e pessoal. Acredito em algo muito maior do que nós, onde nossa percepção não alcança. E apesar de tudo, acredito no Homem." (Alexandre Antunes, ator)
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"Quem tem Medo de Virgínia Woolf?"


Dando prosseguimento o projeto Teatro Aberto, que abre espaço para encenações experimentais de grupos novos da cena local, o grupo PINDAIBANOS de PANO apresentará, nos dias 03 de Outubro e 10 de Novembro, o espetáculo QUEM TEM MEDO DE VIRGINIA WOOLF?

Sinopse: George e Marta, casal de meia idade, recebe a visita de jovem professor e sua esposa. À medida que a madrugada avança, as tensões emocionais e psicológicas entre os quatro personagens tornam a verdade algo inevitável e deprimente. 
Texto: Edward Albee. Elenco: Karine de Bacco, Marcelo Pinheiro, Alexandre Antunes. Direção: Eve Mendes. Sala Álvaro Moreyra – Centro Municipal da Cultura: Av. Erico Veríssimo, 307 - Porto Alegre. Dias: 03 e 10 de novembro - Terças-Feiras, às 20h. Entrada Franca!!!

29.10.09

proporções

Faz alguns meses que ando sem dizer nada, mas pensando o seguinte: à parte da proporção e do tamanho, não existe muita diferença entre as pequenas notícias que registro por aqui e aquelas que ocupam os jornais importantes; assim como não há grande diferença entre aquele que acerta um passarinho (e ri as risadas de vitorioso) e essas figuras que ocupam os nossos livros de História. Com um pouco mais de poder e, consequentemente, ampliado o tamanho da pedra, seriam as mesmas pessoas capazes de bombardear o mundo.

25.10.09

A história de Pimpe - III


É que Pimpe não tinha boas recordações do mundo. Ele era um boneco feito de latas muito chutadas na vida. Não só chutadas, mas amassadas e duramente esmagadas sob um sapato! Por isso, quando a menina chegou, ele estava no canto da loja de artesanato, morrendo de medo de tudo. Ela abraçou e brincou tanto com ele, e contou tantas histórias bonitas que ele decidiu: não queria mais ficar longe daqueles braços tão quentinhos.

(desenho meu e modelo de pernas: Thaís Leite :P)

24.10.09

A história de Pimpe - II



(quando o desenho for muito tosco assim, eu sou a culpada, o Pablo é inocente!)

A história de Pimpe - I

Este é Pimpe, o boneco-de-lata. Ele tem esse nome em razão do Pequeno Pimpe, um livro que ele não se lembra direito, mas sabe que era a história de um carneiro que tinha a cara de bode. E foi por isso que ele ficou um pouco complexado.

Quando vem chegando a tarde, ele arregala os olhos em direção à janela, querendo saber se a menina já cresceu, se ela já foi comprar batom e maquiagem, se ela não vem mais nunca. A Boneca-de-Pano tenta acalmá-lo, mas não adianta.

Ele cismou que quando a menina crescer, ele será deixado no porão úmido daquela casa, onde a mãe empilha dezenas de caixas que não servem mais. E não só: um dia, a dona verá a sua cara de bode enferrujado e lhe dará umas cinco marteladas, antes de enfiá-lo num saco e mandá-lo para a reciclagem. Então, ele será  transformado numa latinha de cerveja, e ficará lá jogado na areia da praia, de 200 a 500 anos, esperando a decomposição do seu corpinho.

Mas nem tudo estará perdido, pois um siri arisco será o seu mais novo amiguinho, e eles contarão muitas aventuras um para o outro... até que um restaurante de frutos-do-mar o capture e ele saia gritando desesperado, para que o Pimpe o salve. Mas Pimpe nada poderá fazer, senão sentir os raios UVB esquentando o seu corpo de alumínio, e ver o seu grande companheiro em apuros. Isso tudo até que a menina volte correndo da escola e lhe dê um abraço.

(Ilustração: Pablo Gamba)

carta nº 9: dos primeiros dias

Ontem os seus olhos doeram em mim. E como pode um olhar doer em alguém uma dor tão limpa, rabiscar de azul o silêncio que estendi pelos cantos no chão? Tive tanto medo de encontrá-los, tive medo de levantar os cílios e eles se deitarem feito um pássaro em tuas mãos tão claras, e descobrires o que eu já não posso evitar. Tive medo de notares o quanto eram indefesos diante dos teus... Por isso, tratei de escondê-los por trás do quadro, dos ferros na janela, da cortina, do tapete, das pétalas, colocando-se diante de minhas pálpebras, enquanto eu falava qualquer coisa para me esconder por trás das palavras.

Mas foi quando eu ainda nem havia dito nada, foi quando eu ainda nem te conhecia, foi na fresta que, por descuido, esqueci aberta... que teus olhos doeram em mim, caíram em mim e me mancharam de tinta. Não sei o que era ali dentro deles, se a minha tristeza ou a tua, mas nunca vi olhos tão claros, nem outros que ofuscassem tanto a minha vida.

Agora eu viro para o lado e não quero mais que o outro me siga, não quero mais que o outro me toque porque tocar as minhas costas é empurrar a manhã para o meio das nuvens, entende? Uma manhã que era toda feita para colher as maçãs, as maçãs que eu enrolaria doces numa forma para te dar. Por isso, quando ele me tocou, duas lágrimas eu aninhei no travesseiro, e escorri com elas, e dentro delas esperei que ele tocasse o meu corpo. Só voltei quando ele acabou.

23.10.09

dos cílios

Os cílios agarraram-se às pálpebras quando tentei fechar meus olhos. Mas você assoprou e todos voaram. De novo nasceram e de novo voaram. Não faça mais isso! Quem vai cortar a lágrima em fatias no dia em que você for embora?

sobre o sono

Meu sono é um crânio escuro, onde mora um homenzinho alado. Às seis da manhã, ele levanta as minhas pálpebras, assim como eu, na esperança do amanhecer, também levanto as janelas do quarto.

da leitura

Era uma vez um leitor, curioso sobre a história dentro de um livro. Era uma vez um livro, curioso sobre os olhos daquele leitor. Era uma vez a história de um. Era uma vez a história de outro. Mas porque alguém tinha de dar o braço a torcer, o livro rendeu-se e começou o primeiro capítulo. Os livros sempre se rendem: não é a toa que eles capitulam.

Dona Lulu e Seu Carlinhos



Naquela época, era diferente. Dona Lulu quem fazia a corte. Escrevia cartas, mandava flores, mas Seu Carlinhos permanecia desconfiado. Disse que só aceitaria o namoro se Dona Lulu pedisse a sua mão para os pais. Dona Lulu aceitou, mas avisou que não pensava em se casar... Seu Carlinhos ficou indignado! Disse que era um homem direito, ora essa. Por fim, chegaram a um acordo quando ele aceitou ser o dono-de-casa. Enquanto ele plantasse e cultivasse as mandiocas, ela iria ao rio pescar ou à caça dos animais para o almoço - eles não eram vegetarianos. (Depois, quando ela chegasse exausta e desmaiasse no sofá, ouviria toda sorte de reclamações. Que já não beijava com tanta paixão! Que não se preocupava mais com as preliminares!) Ah, Dona Lulu pressentiu tudo isso num segundo, mas gostava tanto de Seu Carlinhos que decidiu seguir adiante.



Ao chegar, o pai de Seu Carlinhos foi logo dizendo que Dona Lulu tinha feito uma ótima escolha! O filho era muito prendado: sabia cozinhar, lavar, passar, costurar, arrumar a casa e cuidar do jardim. Além disso, ele já tinha o enxoval completo, desde mocinho. Disse que o filho tinha jeito com as crianças e que... e que... ainda era virgem. Dona Lulu explicou: "Sou uma mulher moderna, não faço questão que o homem seja virgem para se casar comigo." O pai balançou a cabeça, em concordância: "Pois é verdade! O mais importante é ele ser prendado porque vocês mulheres saem pra trabalhar fora e, quando chegam, querem encontrar a comida feita, o marido cheirosinho, com uma cueca de renda, não é verdade?" Dona Lulu coçou a cabeça. O pai de Seu Carlinhos era meio estranho, mas ela gostava tanto do moço que decidiu seguir adiante.



O problema foi a mãe do Seu Carlinhos! Ela chegou nervosa, batendo na mesa: "Bem, cadê a janta? Ainda não fez? Mas que lubrificação!". O marido tentou acalmá-la: "Não fale palavrão na frente da visita, amor, o jantar está quase pronto..." A mãe olhou os cantos, farejando: "Visita? Que visita?".

Quando Lulu viu a sogra, escondeu-se atrás da cortina! "O que é isso?", perguntou a mãe. "É a moça que veio pedir a mão do nosso Carlinhos...", respondeu o pai com os olhos marejados. "Está louco?! Essa fêmea quer levar o nosso filho?! Ela vai se casar é com a minha espingarda, isso sim!" Ixi! Dona Lulu fugiu como pôde, naquela época, as mães eram muito bravas. O jeito era um só: fugir com o Seu Carlinhos! Então, foi correndo buscá-lo, no cabeleireiro.



Dona Lulu entrou no cabeleireiro e ficou espantada. Todos os homens falavam mal de suas mulheres. Alguns faziam a unha. Outros depilavam a barba com cera. E todos usavam máscaras de pepino. Depois, entravam em capacetes gigantes, de onde saía... vento! "Será que são cabeças-de-vento?" - ela pensou - "Será que são cabines de comunicação extraterrestre? Será que entram ali, com a cara verde, para falar com marcianos? Será que os homens estão planejando dominar o mundo?"

De repente, alguém gritou: "Socorro! O que você fez com meu cabelinho? Você cortou três dedos! Que tragédia!". Dona Lulu, achando estranho, comentou: "Nossa, os homens dão tanta importância aos cabelos!" E o moço ao lado respondeu: "Não ligue para ele! O Sansão é assim mesmo! Todo mês é esse estresse na hora de aparar as pontas!"

Lulu continuou: "Bom... só estou aqui para falar com Carlinhos, você sabe onde posso encontrá-lo?" Antes que ele pudesse responder, uma cabine esfumaçada pousou no chão. "Será Deus Marte?" - pensou Dona Lulu - "Será a mãe de Carlinhos com uma espingarda? Ou será o Rei dos Baixinhos, em mais um programa Sonho dos Apaixonados?"



Pois é, amiguinhos. Por incrível que pareça era mesmo o Rei dos Baixinhos, do alto dos seus 15 cm, em mais um programa Sonho dos Apaixonados. Bah...! Dona Lulu não entendia por que tanta confusão. Só queria ficar em paz com Seu Carlinhos, sozinhos, mas antes que pudesse ir embora, o apresentador começou:

Rei dos Baixinhos: Boa tarde, telespectadores! Estamos aqui, nesse programa maravilhoso, para contar a todo o Brasil a linda história de amor entre Lulu e Carlinhos! Um amor que venceu todas as barreiras para seguir adiante e triunfar! Mas, antes de começarmos, vamos chamar os nossos patrocinadores!

Patrocinadores: Se os pêlos do seu peito estão embaraçados, se o seu bigode já não é mais o mesmo, cheio de pontas duplas e danificadas, use o creme de silicone Victor Kaf. O nosso creme reúne ingredientes altamente selecionados! Victor Kaf, a alegria dos seus pelinhos! É com você, Rei dos Baixinhos!



Rei dos Baixinhos: Chegamos ao momento mais esperado: a prova da fidelidade! Colocamos Lulu na cabine acusticamente isolada e tudo que ela precisa fazer é responder SIM! ou NÃO! quando a luz acender! Lulu querida, você tem em seu coração a pessoa mais linda do mundo, o grande amor da sua vida: Seu Carlinhos! O que o Brasil inteiro quer saber é: você quer trocar o seu amado pelo Wando, Dona Lulu? (Em meio ao mais absoluto silêncio, a luz acendeu. Como Lulu era uma pessoa muito positiva, entre o sim e o não, é óbvio que ela escolheu o sim.

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!! (A platéia reagiu aos gritos. Homens enfraqueciam as bandeiras de apoio e levavam a mão à boca, decepcionados com a conduta amorosa de Lulu).

Rei dos Baixinhos: Dona Lulu! Como pôde trocar o seu grande amor assim, tão facilmente? (Dona Lulu, sem entender nada, só sorria). Lulu querida, vamos para a penúltima etapa da prova. Não nos decepcione! Agora, você tem em seu placar o Wando. O que o Brasil inteiro quer saber é: você quer trocar o Wando pelo Fofão e mais cinquenta caixas de chocolates Diziolli? Outra vez, no silêncio da cabine, a luz acendeu. Dona Lulu ficou pensando entre o sim e o não. Como sempre teve dificuldades para dizer não, escolheu o sim:

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!!

Rei dos Baixinhos: Dona Lulu! Mas o que é isso? Você veio aqui para casar ou tirar uma casquinha dos participantes? Vamos tentar de novo! Não desperdice essa chance! Você quer trocar o Fofão por Seu Carlinhos, o grande amor da sua vida?

A luz da cabine acendeu.

Dona Lulu: - Siiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmm!!!

Rei dos Baixinhos: Ela disse sim! Atenção, telespectadores. Eis o momento mais importante da noite. Se Dona Lulu escolher Seu Carlinhos, eles saem daqui com as alianças de casamento e uma casa novinha em folha. Mas... se ela não escolher Seu Carlinhos, segundo os contratos do jogo, terá de se casar com o homem no placar e não terá nenhuma ajuda do programa Sonho dos Apaixonados, pois somos a favor da mais absoluta fidelidade! Atenção, Dona Lulu! Você quer trocar o grande amor da sua vida por Jece Valadão, líder na luta pelos direitos masculinos?

Dessa vez, Dona Lulu teve um certo pressentimento, como se o seu coração estivesse avisando alguma coisa. Uma espécie de intuição masculina. Por isso, apesar do otimismo, disse não:

Dona Lulu: - Nããããããããããããããããããooooooo!!!

(Falha nos microfones da cabine).

Rei dos Baixinhos: Eu sei que é uma decisão muito difícil. Afinal, Jece Valadão é uma personalidade e tanto. Mas você precisa decidir, garota! Vamos lá, o Brasil quer ouvir sua resposta!

Dona Lulu: - Nããããããããããããããããããooooooo!!!

(Falha nos microfones da cabine).

Rei dos Baixinhos: Tudo bem, vamos deixar Dona Lulu pensar um pouco mais. Parece que ela está um pouco indecisa. Para quem não sabe, Jece Valadão ficou conhecido nos anos 60 por ter queimado as cuecas em praça pública. "Abaixo às cuecas, deixe o seu amigo soltinho". A campanha teria alcançado grande sucesso se, ao queimar a própria cueca, o fogo não tivesse queimado as partes impróprias e...

O microfone do Rei dos Baixinhos começou a pegar fogo!

Rei dos Baixinhos: Socorro! Deu curto no microfone! Ele está pegando fogo! Socorro! Socorro! Alguém me ajude! Corta! Corta! Corta! Chamem nossos patrocinadores!

Patrocinadores: Claro, Rei dos Baixinhos! Se os seus pêlos estão embaraçados, queimados ou esturricados, use o creme de silicone Victor Kaf. O nosso creme reúne ingredientes altamente selecionados e, se usado todas as noites, fará com que os seus pêlos estejam sempre macios e perfumados! Creme de Silicone Victor Kaf: a alegria dos seus pelinhos!

Parte IV - Da viagem nas roupas

Bem, da viagem nas roupas descobri que uma jaqueta de frio serve muito bem como calça inusitada, especialmente para quem tiver as pernas finas. Instrução 1: enfie os cambitos no lugar das mangas. Instrução 2: abotoe o fecho ecler. Veja, não sei por que você faria isso, talvez você precise algum dia, não sei. Aliás, ficou uma bela calça de alta-costura. Os costureiros famosos devem passar o dia inteiro vestidos assim: a blusa no lugar da calça, a cueca no lugar da touca, para inventarem tantas roupas esdrúxulas como aquelas que eu vejo na Fashion TV.


E esta calça de alta-costura, que inventei quando viajei pelas roupas, não sou livre para usá-la no meio da rua. Entretanto, aquelas mulheres andam com penas de pavão no carnaval e está tudo bem. As pessoas combinaram que no carnaval se anda com penas de pavão. Mas na rua não se anda com calças de alta-costura. Eu não participei da convenção onde essas coisas foram acertadas sem que eu, também, desse o meu aval. O que leva essas pessoas, que nunca vi, esperarem de mim que eu não saia na rua com minha calça inventada de alta-costura? Que eu não saia nua? Ou tantos outros comportamentos?
O mais estranho é que se eu decidir que a minha calça inventada de alta-costura será de listras horizontais, brancas e pretas, as pessoas irão associá-la às roupas dos presidiários, mesmo que eles não usem mais esse tipo de roupa. Listras brancas serviam para identificar os prisioneiros no escuro e as listras pretas para identificá-los nos ambientes claros. E eram horizontais para que não fossem confundidas com as grades da cela - verticais. Ora, mas eu não quero fugir, gente! Eu não quero ser identificada em ambiente algum, pessoal! Pelo contrário! Só queria andar em paz com minha calça inventada de alta-costura de listras horizontais, brancas e pretas, só isso...

Parte III - O sal do oceano

Nessa poeira existe até o sal do oceano. O sal se evapora e é quase tão numeroso quanto as partículas de terra, não é impressionante? Eu estava quase concluindo que nem precisaria mais viajar, que havia de tudo naquele quarto, até partículas de oceano havia, vejam só. Contei a minha mãe e ela me sugeriu um aspirador de pó, disse que estava na hora de arrumar a bagunça. Ah... minha mãe não compreende a magnitude do caos! Até o seu coração bate caoticamente, mãe! A mancha vermelha de Jupiter, mãe! Mas a minha mãe não parece acreditar que Jupiter tenha alguma coisa a ver com um pé de meia jogado no chão. Mas eu defendo que sim. A Tida vem e arruma tudo. O que acontece? Você não acha mais nada. E por quê? Porque a natureza caótica do seu quarto foi alterada! A poeira de Mar... Droga. A Tida levou tudo numa flanela molhada.

sobre o plágio

Hoje uma leitora bem querida me enviou um email, dizendo que uma moça tem plagiado os meus textos. Confesso que até me ajeitei na cadeira, com ares de alguma importância, e fui lá conferir a homenagem. Reconheço que alguns textos até ficaram melhores do que o original e, se a moça não se importar, incorporarei as modificações, dando-lhe os devidos créditos, claro. Penso até que nem seja um plágio, mas que a moça esteja treinando o próprio estilo. Feito quando a gente aprende a andar de bicicleta e utiliza aquelas duas rodinhas de apoio. Logo logo, ela irá se desprender dos meus textos e deslizar pelas ruas com os seus braços abertos.

o meu sapato

E depois fiquei ali, com a cabeça baixa, sem desgrudar os olhos do meu sapato. Alguns modelos de sapato são assim: feitos com olhos grudados, não há solvente que os possa tirar. Há uma grande distância entre o pensar e o agir. A distância de um passo que o meu sapato, tão cheio de olhos, não soube enxergar.

o acidente

pois ali está uma senhora levantando a porta enrugada do seu automóvel que, num segundo, envelheceram. No retrovisor, um pedaço de espelho partido e o olhar de uma moça que colidiu contra o tempo. E por isso acariciam-se - o automóvel e a senhora - com suas peles envelhecidas, abraçadas à árvore que não guarda rancor.

madrugada

Para o homem que dorme na rua
o asfalto é uma noite escura
e sem estrelas.

sobre os vestidos esvoaçantes

Olha, eu não deveria mais vestir um pedaço de tecido que já se considera "vestido" antes mesmo de abraçar o meu corpo. Trazer um particípio passado enrolado na pele é estar envolta nessas lembranças.

sobre os vestidos de algodão

Não, não te preocupa vestido!
Amanhã, quando o sol quente voltar ao céu
e todas as nuvens te quiserem de volta,
os dois pregadores, no varal, vão te salvar!

novo sinal de trânsito

O semáforo de pedestres acabou de me dizer que o Incrível Hulk pode atravessar.

foco narrativo

Outras vezes, eu acho que Deus criou o mundo por não suportar as histórias em primeira pessoa.

22.10.09

sobre eles

Ela afundou o corpo nele o mais que pôde, como se assim pudesse aprisionar um instante, como se assim pudesse aprisionar o amor. E ele, querendo as respostas que a vida não lhe entrega e que só uma mulher é capaz de abrigar dentro de si, puxou os seus quadris com a ânsia de escorregar para dentro dela e ali ficar. Só uma fêmea é capaz de dividir-se assim ao meio: a metade de baixo a sobrepor-se forte, desfalecendo as resistências do macho e a de cima a ampará-lo doce, beijando e acarinhando os medos de um filhote.

Parte II - A poeira

As pessoas dizem as coisas e essas coisas passam a existir, assim como Deus fez com o mundo. Bem, eu não acredito muito nessa história e, provavelmente, nem Deus acredite nas minhas. Tudo bem. Acontece que, agora, depois de me lembrar do artigo de John Ferguson, fico pensando que a poeirinha, na quina do monitor, deve ser de Marte e a outra, em cima do livro, deve ser de Saturno. Costuma-se trazer das viagens lembrancinhas para os amigos. Eu poderia dar de presente umas poeiras importadas de Marte e outras de Saturno, né? Bastaria passar uma flanela molhada. Ninguém nunca me deu uma flanela molhada de presente, que estranho.

Parte I: A viagem

Então, cismei que precisava viajar, pois tinha vindo ao mundo em excursão e estava perdendo a viagem. Mas não poderia ser qualquer viagem: pegar um avião e descer em país estrangeiro. Não. Antes, eu começaria por viajar dentro da roupa, vestindo a camisa do avesso e de trás para frente. Depois, ficaria uma semana viajando no quarto, descobrindo fendas e esconderijos. Entrei no guarda-roupa e fiquei ali, como às vezes faz o Gatildo, meu gato. Acabei me dando conta de que não estava sozinha, que éramos cupins, traças, poeiras e ácaros, todos juntos, ali dentro. Gritei assim: As viagens de Gulliveeeeer. E minha mãe entrou. Isso não foi muito bom porque já tem aquilo da psicóloga atestar o meu desajuste. Depois, gritar dentro do guarda-roupa fechado, só você ali dentro, isso não é bom. Ah, mas querer descobrir um novo ponto-de-vista não é coisa de doido, é? Acho que não. Certa vez, li num artigo de John Ferguson que um ambiente fechado tem mais poeira do que ao ar livre e que, na casa das pessoas, há poeira de todos os locais do planeta, inclusive poeira extraterrestre! Logo, ficar escondida no guarda-roupa seria começar uma viagem interplanetária!

reciclagem

Tempo difícil para as pessoas desse mundo:
quem tinha tempo para a poesia?
Pois ela comprou um carrinho invisível
e começou a catar palavrão.

preste atenção:

O mundo é um moinho. Não de vento, mas de sopro. O que Cartola chama de sonho mesquinho, as crianças... de catavento.

verbete "abraço"

En portugais, "abraço" c'est l'expression utilisée pour marcher contre le vent sans fluctuer, en cas de passion.

as tartarugas do lago

Eu hoje fui alimentar as tartarugas porque existe essa alegria que é morar perto de um lago, ajeitar o vestido para o lado, sentar-me embaixo da árvore retorcida, olhar aquela superfície muito verde carregando, de um lado ao outro, as tirinhas de sol e... alimentar as tartarugas. Existe essa alegria, e eu não posso evitá-la, pois são poucos os gestos permitidos, se você reparar; não podemos desperdiçar um que seja. Então, muitas vezes, eu preciso de um fone de ouvido para ouvir a minha alegria bem alto sem incomodar o vizinho. É algo inédito, mas agora existe isso na minha vida. Então, eu me sento ali no cantinho e sou feliz, escancaradamente sem motivo! As tartarugas não se importam, e sequer imaginam que as bolinhas flutuando na água são um oferecimento da moça do vestido florido.

21.10.09

Dona Mariana

"A gente cria, mas não dá coragem de matar, sabe. Lá na chácara, eu não vendia, deixava as galinhas até morrerem de velhinhas. Aqui mesmo, morreram umas galinhas, já não botavam mais nada, não tinham remédio, mas a gente não tem o costume de vender. Sei lá, eu acho até que... ah, não acho certo vender as galinhas. Na casa da cumadi, teve uma festa de noite. Os convidados pegaram um patinho da gente. Depois, Dona Alzira achou uma pata com o pescoço cortado, sem morrer. Ô judiação, não era para comer que a gente criava os patinhos, era só por amizade... " (...)

Dona Luíza II


"Eu saí hoje, vi que não tinha nada para tomar café, mas eu tinha três reais na bolsinha. Dei para a Teresa comprar comida aos meninos. Teresa me faz muita raiva, mas eu fui nascida para perdoar. As pessoas nascem para certas coisas desde que o mundo é mundo. Eu fui nascida para perdoar. "

pés descalços


Parece que foi ontem, eu correndo entre as árvores cheias de frutos. Eu peguei um dos frutos, mordi. O tempo pegou uma das flores, caiu. Parece que foi ontem, eu deitada na grama para olhar as nuvens e meus dedos descobrindo na terra a flor que eu nunca poderia salvar. Se ao menos ela aceitasse o sol e a terra que eu tinha. Se ao menos não desistisse da primavera quando o inverno chegasse primeiro pousando as suas mãos sobre ela... Parece que foi hoje, os transeuntes com pressa, trazendo os caminhos do futuro para baixo dos pés. E eu entre os meus pés distraídos, descalços, colhendo do tempo, daquela antiga praça, uma erradia flor.

anúncio para solitários



Procura-se um amigo sozinho
de andar discreto e gesto silencioso.
Procura-se desesperadamente um amigo
que saiba se aproximar
de um passarinho.

Resposta a Dalton Trevisan

Texto original:

"Amanhã faz um mês que a Senhora está longe de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem de relance no espelho.
Com os dias, Senhora, o leite primeira vez coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah, Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença, última luz na varanda, a todas as aflições do dia.
Sentia falta da pequena briga pelo sal no tomate — meu jeito de querer bem. Acaso é saudade, Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei água e elas murcham. Não tenho botão na camisa. Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha? Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa, Senhora, por favor." (Apelo, Dalton Trevisan)


Resposta:

As meias, senhor, as meias eu vou ensinar como se costuram. Primeiro, é preciso alinhavar o tempo. Achar a ponta mais longe e desfazer os embaraços, partindo do fim para o começo. Eu já estava no ônibus quando hesitei, quando desci no primeiro ponto que a agulha desfez entre nós. Subi as escadas em caracol, tentando cerzir a nossa fazenda já estampada de flores tão murchas e, por mais um instante, voltei para casa, senhor. Olhei a casa, senhor.

Uma camisa jogada no chão, de braços abertos. Meu apelo em cada canto do quarto. O batom, o vestido. A meia encolhida, sem par. A rede pendurando, solitária, um sorriso na varanda. À espera de um outro sorriso, talvez. Mas o sorriso, na borda da xícara, o senhor esqueceu. A alça sem os laços do seu dedo. Minhas mãos na cintura. Nós dois rodopiando pela sala, em voltas que a cera apagou. E que devem ser as voltas dessa agulha, - essa que ensina a costurar um tecido ferido, senhor.

Depois, é preciso desatar as linhas. As linhas que o senhor me escreveu nessa carta, e  me trouxe a essa casa um mês depois. Então era isso senhor? O leite coalhado? As teias de aranha costurando as fendas no teto? O saca-rolha perdido? A meia furada? A camisa sem botão... O botão sem a casa. A casa. A casa. A casa? O prato na parede. O jarro na parede. A estátua na parede. O relógio tremendo no chão. O ponteiro no cinco. O ponteiro no cinco. O ponteiro no cinco. Uma camisa de braços rasgados. O retrato em duas partes. Um grito alto. As mãos no colo, em abandono. Ouve agora o meu apelo, senhor?

bilhetes II

Alguns escrevem pela arte, pela linguagem, pela literatura. Esses, sim, são os bons. Eu só escrevo para fazer afagos, e porque eu tinha de encontrar um jeito de alongar os braços, e estreitar distâncias, e encontrar os pássaros. Há muitas distâncias em mim (e uma enorme timidez). Uns escrevem grandes obras. Eu só escrevo bilhetes para escondê-los, com todo cuidado, embaixo das portas.

bilhetes I

Quando você se sentir sozinho pegue o seu lápis e escreva: no degrau de uma escada, à beira de uma janela, no chão do seu quarto. Escreva no ar, com o dedo na água, na parede que separa o olhar vazio do outro. Recolha a lágrima a tempo, antes que ela atravesse o sorriso e vá pingar pelo queixo. E quando a ponta dos dedos estiverem úmidas, pegue as palavras que lhe fizeram companhia e comece a lavar o escuro da noite, tanto, tanto, tanto... até que amanheça.

20.10.09

do futebol

Seus dedos na minha pele são arrepios. Todos os pelos, curiosos, levantam-se para ouvir o suspiro. E, comemorando a vitória da pele sobre as palavras, acompanham os seus dedos em ola, arrepiando-se, arrepiados. Seus dedos que, de tão leves, escorregam sobre minha pele, cortando-me em quatro pedaços.

das respostas

Algumas frases têm o poder da folha em branco. Se alguma delas acertar você, abandone todas as suas respostas: é inútil escrever de branco sobre folhas brancas. Minha caneta transparente estourando frases dentro da bolsa:

foi um grande silêncio.

dos postes de luz

Quando voltar do trabalho, olhe para cima e repare:
no meio dos prédios, altos, frios e cinzentos
todos os postes de luz, com seus fios
adormecem de mãos dadas.

do shopping center

Olhar a manequim de uma loja é deparar-se com o silêncio triste de uma boneca que cresceu. E que agora só queria inverter a brincadeira e vestir em você aquele monte de roupinhas.

dos grandes centros

E só essa multidão que esbarra
e esbarra em meus ombros.
Em alguns anos terei os ombros
esculpidos pela solidão.

Bota modernista é inaugurada na calçada


Agora todas as formigas que atravessam a Calçada Limeira podem visitar as Botas Gêmeas na antiga Via das Flores. O projeto, de arquitetura moderna, chama a atenção por suas linhas sinuosas e pelo arrojado teto solar. (Lembramos que, neste caso, solar não vem de Sol, mas de sola de sapato). Para a inauguração de hoje, a convidada de honra é a mezzo soprano Ana Cigarra. Os leitores do JPC podem retirar ingressos com 1h de antecedência. A entrada é franca (para quem conseguir entrar).

Dona Epifânia salva o formigueiro


Na manhã de domingo, Dona Epifânia, uma senhora de 73 anos, perdeu a chave do seu porãozinho. Esfregou a testa. Chacoalhou a cabeça. Mas, tal qual um fio com mau contato, nada do que fizesse parecia ajudar a sua combalida memória. Na mesma parede, dezenas de formigas estavam separadas pelas catástrofes dos últimos instantes: uma porta que, num rangido estrondoso, abrira-se numa fenda de mais de 7 cm da escala Ritcher. Dona Epifânia, sem esperança de encontrar a chave, vê um cadarço jogado e une a porta ao batente. As formigas, mesmo feridas, atravessaram a ponte de pano na maior mobilização já vista. Em todos os formigueiros, a operação resgate foi transmitida ao vivo. Algumas formigas ajustavam as antenas para eliminar os chuviscos da imagem. Por fim, Dona Epifânia, sem saber de nada do que acontecia no reino das formigas, afundou-se no sofá para assistir ao jornal. Das notícias grandes, é claro.

Taturana aproveita feriado no Bungee Jump


"Uuuuuuuu" era o que se ouvia por todo o jardim. Enquanto caranguejos e siris aproveitavam o feriadão na praia, TaturAna Paula saltava de Bungee Jump no quintal de Rita Apoena. A princípio, todos ficaram surpresos. É que TaturAna Paula andava tristinha. Fora chamada de "bicha cabeluda" por seu paquera e ficara muito amuada no tronco da árvore. Não entendia por que feria tanto as pessoas que tentavam se aproximar. E chegou a pensar que alguém com tantos pés no chão, não seria nunca capaz de voar. Mas foi quando o sol iluminou, não só a folha da palmeira, como as idéias de TaturAna Paula. Ela correu e se abraçou na folha o mais que pôde, com todos os seus braços e pezinhos. A folha não se afastou. De longe, enquanto adubava a terra, Rita Apoena ouviu a alegria de uma taturana que, por alguns minutos, aprendeu a voar.

Sapatos brincam de balançar


Certo dia, dentro de uma caixa escura, sentiram muito medo e prometeram que ficariam sempre juntos, para cuidar um do outro. Desde então, nunca mais deixaram de ser amigos. Nunca mais se separaram. Andaram por ruas e ruas, cidades e montanhas; conheceram a textura das pedras, das poças e folhas. Juntos enfrentaram tudo (até o cocô do cãozinho) e brincaram de roda na máquina de lavar... Quanto mais velhos ficavam, mais conheciam os remendos do outro. E quanto mais conheciam, mais se soltavam. Soltaram a palmilha, o bico e a sola. Abriram fendas para entrar a água da chuva. Até que voaram, voaram tão alto... Presos no fio, de cadarços dados, brincavam de balanço. Rodavam lentos, um de cada vez, sem acreditar nas belezas do mundo. As belezas que só agora, como sapatos do vento, conseguiam enxergar.

Botões reivindicam casa própria


No último domingo, botões invadiram a fazenda de Rita Apoena, reivindicando casa própria. Ao saberem que a latifundiária abriria cinco casas em sua nova blusa, os botões concentraram-se em frente a sua caixinha de costura, exigindo mais casas. O presidente do sindicato subiu na máquina de costura e discursou para a categoria. A latifundiária tentou justificar a sua escolha, dizendo que não havia espaço para outras casas, pois era uma blusa e não um vestido. Mas a justificativa irritou ainda mais os botões. Eles percorreram as costas da blusa, as mangas, os punhos e golas em passeata, acusando a proprietária de esconder o tecido e sonegar impostos. Por fim, Rita Apoena cedeu e resolveu abrir casas para todos os botões, independente do tamanho ou da cor. Pregou botão nas costas, na gola, nas mangas, no punho. O conflito só terminou quando Rita aceitou levar todos os botões para pular o carnaval, com sua blusa tão alegrinha (sic).


Lápis não aprova novo corte de cabelo

Fábio Castel, um dos convocados para a prestação do Serviço Militar, saiu do apontador muito desapontado, quer dizer, apontado, não! não! quer dizer, desapontado, ao perceber o seu novo corte de cabelo. O corte em estilo reco, obrigatório para os soldados do 17º Batalhão do Estojo, não agradou em nada o novo soldado, que muito se orgulhava das suas longas madeiras. "Olhem só para mim. O que foi que fizeram no meu cabelinho? Agora, toda vez em que eu me olho no espelho, tomo um susto com esse corte moicano. Por um instante, eu chego a pensar: mas quem é esse punk aí do outro lado?", contou Fábio, muito emocionado, ao Jornal das Pequenas Coisas. Psicólogos endossam as críticas, dizendo que o novo corte de cabelo pode afetar a auto-estima dos lápis.

Minha autobiografia autorizada

Dessa vez, a lâmpada explodiu e eu saí do quarto gritando. Minha avó é boazinha, mas acha que estudar grego é coisa de gente moca. Eu não sei o que é gente moca. E nem o que as lâmpadas fluorescentes têm contra mim. Meu apelido de infância era Cabeça de Mamão Macho. Você acha que isso tem a ver? Por favor, não me esconda! Eu acho que a música do Zorba, o grego, começa devagar, mas depois acelera muito! Eu tenho um gato que se chama Gato de Oliveira, mas o apelido mesmo é Gatildo. Ninguém pode vestir uma blusinha nele que os gatos da rua já começam a tirar o sarro: "Aê paspalho, tira isso daí, bestão!" Definitivamente, eu não gosto de carne e de pensar que o boizinho tinha uma família e era apaixonado por uma vaca que sonhava em viver com ele para sempre, mas não foi possível porque, agora, um pedaço da sua bunda está na borda direita do meu prato. Basicamente, é isso.

dicionário educado I

Quando alguém olha para você e estende aquele dedo do meio, está querendo dizer: "Escute aqui, você não é o mindinho, não é o fura-bolo e muito menos o cata-piolho! Você é o maior de todos, amigão! Você é o maior de todos!"

do fim


da bailarina

Não precisa ficar com ódio até crescer, quando ele abrir a porta e com mãos adultas esmagar seus sonhos de criança, haverá no gesto delas o desespero de um adulto tentando abrir com força uma caixinha de música que nunca mais tocou ao seu rude coração. Não vê como bravo, ele está triste, procurando a infância dentro de você? Não vê como os seus braços, violentos, apertam tanto, tanto... querendo abraçar? Não vê como seus olhos duros estão querendo chorar? Vem, moço, vem brincar no balanço e no gira-gira. Vem ver a pequenina bailarina rodar.

do abandono

Não precisa ficar com medo. Quando a sua mãe não abrir a porta e você passar o dia todo para o lado de fora, eu vou brincar com você e te abraçar tão forte que este sentimento de abandono irá se transformar em mil e quinhentas borboletas, rodopiando em seu cabelo, fazendo cócegas em sua barriguinha. Então, você irá entender que a sua mãe não pode abrir a porta porque dentro do quarto onde ela chora, faz tanto frio e tanto medo que o jeito mais bonito que ela encontrou de te amar foi te deixar para o lado de fora.

Dona Epifânia I


"Perdi meu pai quando a minha mãe estava grávida. Me criei. Nem tinha o que comer, não tinha o que vestir, não tinha o que calçar. Minha mãe fazia uns sapatos, uns chinelos pra vender, pra nós comprar o que de comer. Quando ela estava se erguindo, um tio meu quase matou ela porque minha tia fugiu com um rapaz, e ele pensava que mãe sabia. E mãe procurando ela. Então, a gente comia uns matos lá no norte, xiquexique, chega ardia na garganta, palma, umbu, quixaba. Minha mãe muito doente. Aí eu falava: 'Mãe vamo embora daqui!'. Ela dizia: 'Não, minha filha. Para onde eu vou? Já vendi a minha casinha.' Eu disse, pequeninha. 'Mãe eu corto mamona, nós faz uma casinha na areia. Lá é difícil chover mesmo. Com as folhas assim, lá não chove mesmo, e daí eu vou procurar fruta para nós comer. E eu fui mesmo e ela foi atrás, tadinha, fazer meus gostos... Parecia uma casinha de boneca, ela entrou assim, se encurvando. E ficou lá comigo."

o moço que entrega panfletos

Arrumo o meu cabelo e ele ajeita a camiseta. Existe alguma coisa entre nós: uma vontade mútua de não sermos cinzas. Van Gogh nos borrou de verde-água, e agora nós dois nos reconhecemos, apesar da multidão. Eu, a moça que sai do trabalho, e ele, o moço que entrega panfletos do dentista. É claro que eu sou muito mais do que uma moça que sai do trabalho e ele é muito mais do que um moço que entrega panfletos na rua. Mas tudo o que sei sobre ele é que uma obturação custa menos de dez reais e tudo o que ele sabe de mim é que meu sorriso é amplo e gratuito. Assim, a nossa relação gira em torno de dentes: fortes e insuperáveis. A multidão me atropela, assim como atropela e pisoteia os seus panfletos, mas eu paro por nove segundos, como se apanhasse a última edição do jornal, leio as suas manchetes odontológicas, sorrio ao meu amigo e digo... muito obrigada! A multidão o atropela, assim como atropela e pisoteia os meus amuletos, mas ele para por nove segundos, como se me entregasse os mais belos poemas camuflados, sorri e me diz... boa noite! E eu vou embora, com o nosso segredo guardado no bolso. Ali está meu cavaleiro andante e sua armadura de plástico, colorida, com os preços estampados.

de la esperanza


Ilustração: Pablo Gambadori (muito obrigada!)

Donde quiera que el ómnibus me lleve
el sol acompaña mi rostro a través de la ventana
como un barrilete!
amarrado por la esperanza.

do sono

O sono chega
quando a noite tenta
pendurar-se em minhas pálpebras
amarrando estrelas
- uma a uma -
em cada cílio.

o caramujo e a poça d'água

Ele achava bem difícil, era quase saltar de um abismo! Chegava pertinho da poça, mas voltava pro esconderijo. Seus amigos não entendiam por que ele se sentia assim. Nunca viram caramujo com esse medo d'água fria! Mas o caramujo temia e toda hora imaginava que de dentro da poça pulavam jacarés e crocodilos! Os colegas diziam: "Ô Mujinho, o qué qué isso! Óia lá se tem cabimento um jacaré morar ali dentro?! E ainda ficar pulando?! Será uma Cuca com Saci-Pererê?" E foi tanta gargalhada que Mujinho decidiu: ele ia atravessar a água sem esse mas-nem-porquê. E quando abriu os olhinhos, esperando o crocodilo, viu que a água era doce e o caminho, tranquilo. Não tinha bicho e nem monstro! Tinha só um caramujinho refletido lá dentro...

a menina e o arco-íris


Todo dia, a menina corria o quintal, procurando um arco-íris. Corria olhando para o alto, tropeçava e caía. Toda vez que se machucava, vinha chorando uma cor. Um dia, chorou o anil até esvaziá-lo dos olhos. Depois, chorou laranja, chorou vermelho e azul. Chorou verde. Violeta. Amarelo e até transparente! Chorou todas as cores que tinha, todas as cores de dentro. Então, abriu os olhos e nem o arco-íris, ela viu. Não viu flores e borboletas. Não viu árvores e passarinhos. Pensando que era ainda noite, deitou-se na cama e dormiu. Pensando que era tudo escuro, nem levantar-se ela quis! Ficou dormindo cinzenta, por dias e noites sem fim... Foi quando um sonho, tão colorido, derramou-se dentro dela! Tingiu o travesseiro e a fronha, o lençol e o pijaminha. Tingiu a meia e o quarto. Tingiu as casas e os ninhos! A menina abriu a janela e viu que hoje não tinha arco-íris. Mas tinha o desenho das nuvens, tinha as flores e um passarinho.

verbete "amour"

Em francês, "amour" significa o par de meias macias que um estende ao outro ao perceber que seus pezinhos estão esfriando.

do Outro


L'etranger / O Estrangeiro (Albert Camus)

"J'ai souvent pensé que si l'on m'avait fait vivre dans le tronc d'un arbre sec, sans autre occupation que de regarder la fleur du ciel au dessus de ma tête, je m'y serais peu à peu habitué."

(Pensei muitas vezes que se me obrigassem a viver dentro de um tronco seco de árvore, sem outra ocupação além de contemplar a flor do céu acima de minha cabeça, eu teria me habituado aos poucos).

dos poetas

Então, quando você me beijar,
vai sentir o gosto da minha escrita,
pois a fim de nunca esquecê-las
eu trago todas as minhas palavras
na ponta da língua.

da cumplicidade

Rita Apoena não entende por que um guarda-chuva se chama guarda-chuva e não guarda-cabeça. Afinal, de que lado ele está?

do vazio

Mariana lambeu as lágrimas que escorriam,
manchando a língua de tristezas.
Quando o vazio é muito grande,
as lágrimas são transparentes.

Dona Luíza I


"Você sabe, o Brasil é novo perante o estrangeiro. Daí vieram um bocado das gentes, uns nadando, outros num pé de tábua - aquelas tábuas que parecem um naviozinho, não afundam. Foi aumentando a população, eu acho assim. Eu não gosto de certas coisas, vieram do estrangeiro de navio com os escravos. Como que traziam os escravos! Naquele porão, um por cima do outro, como... como uma coisa que não fossem gente! Os escravos faziam cocô, xixi, tudo ali entre eles, saíam tudo sujos aqueles rapazes lindos, morenos. Como que um povo que começa assim, Ritinha, pode ter respeito por si? A Bahia foi o primeiro lugar do Brasil, a Bahia tem muito valor, mas o povo vem de lá sem saber do valor que tem..."

carrinho invisível

Tempo difícil para as pessoas desse mundo:
quem tinha tempo para a poesia?
Pois ela comprou um carrinho invisível
e começou a catar palavrão.

sobre a noite

não é difícil congelar a cena,
quando podemos cruzar o cenário
e costurar uma estrela:
pequeno botão que fecha a noite
antes do dia se abrir.

do encontro


sobre o aborto

E naquele dia,
o seu filho nasceu para dentro.
E quanto mais o tempo passava,
mais o menino crescia:
esbarrando no seu coração.

sobre o tempo

Procuro uma câmera
que fotografe o iminente,
e a memória revele as imagens,
pendurando-as na linha do tempo,
para secar.

da partida


da partida

No início da longa estrada,
há uma placa de trânsito pedindo
aos transeuntes:
favor reduzir a estatura à medida
em que se aproximar do horizonte.

poeira

Mas a poeira é só a vontade que o chão tem de voar.

19.10.09

Benjamins começam a namorar

Ufa! Depois de tanto sufoco e timidez, os dois finalmente se encontraram no laguinho da pia. Ela, um tanto envergonhada de suas sardas e pintas; e ele, como dizem, mais vermelho do que um pimentão, sem saber como lhe pedir um benjinho. Tinham tanto, tanto! a dizer que não achavam palavras. Por isso ficaram em silêncio, olhando-se pelos reflexos, um sorvendo a presença do outro.

cachecol xadrez

Querido Helano,

será que, às vezes, a gente vai com tanta pressa ao encontro de alguém que se esquece de se levar junto? Será que o Sol, quando é muito forte, faz a sombra chegar primeiro do que a gente? Será que é assim que tudo acaba? Ou nem mesmo começa?

Acordei com uma fresta de luz brincando na cama, o sol deitando a sombra das folhas em minhas pálpebras. E era tão bonito e simples ver a luz pintando os móveis de colorido que entendi o fim de um casamento: nenhum amor floresce preso numa casa, sem contemplar, por instantes, a luz de uma tarde...

Então, guardei aquela fotografia por dentro dos meus olhos para quando eu olhar você. E você, como sempre, não me responder palavras, não me escrever palavras, mas quando o sol for sumindo, me estender sorrindo o seu cachecol xadrez.

sementeira de tulipas

Querido Helano,

Hoje eu comprei várias sementes de girassol. Há isso de extraordinário no mundo. Quando alguém se sente só ou com saudade de outrém pode comprar sementes de girassol para vê-lo crescer. Pode até fazer uma sementeira de tulipas. Neste caso, é preciso aguar todos os dias, com a ponta dos dedos, deixando cair uma ou duas gotas, apenas. Já as coisas abrutalhadas, máquinas, tratores ou edifícios, deixo aos outros cuidarem. Também elas precisam de carícias: não vê o homem pendurado nas vidraças com um pano molhado? Não vê a máquina acarinhando a outra com a lixa? Há muitas formas de cuidar. E, felizmente, o delicado e o bruto na esfera do mundo. Se me ocupo da semente é porque escuto o seu silêncio. O silêncio com que ela abraça, tão brandamente, o seu grãozinho de terra.

Querida Teresinha

Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nas pessoas ao nosso redor? E ir deslizando pelos pequenos detalhes, na beleza não manifesta e, ao mesmo tempo, ofuscante? Quanto tempo a gente leva para repousar os olhos nos olhos do outro, sem qualquer pressa, sem procurar ali dentro o próprio reflexo? Foi esses dias, Teresinha, eu aninhei as mãos de minha avó por dentro das minhas, encostando o meu rosto em seus dedos tão frios, como se ela tivesse acabado de nascer em seu corpinho já envergado pelo tempo e marcado pelos dias. Naquele segundo, eu entendi que nada era mais urgente, nem mais importante, do que ouvir a minha avó reaprendendo a falar... e que eu sequer começaria a ver alguém - além de mim mesma - se não pudesse enxergar as pessoas para as quais olhei a vida inteira.

Sobre o tempo

Procuro uma câmera
que fotografe o iminente,
e a memória revele as imagens,
pendurando-as na linha do tempo,
para secar.

13.10.09

conselho

Vocês que são magros, deem-me um conselho: o que fazem para comer?! Depois da famigerada gripe, algo operou-se em meu ser, e tenho olhado para a comida - mesmo as mais lindas e apetitosas e doces - com a mesma vontade que olho para o meu Manual de Análise Sintática. Depois de uma semana me alimentando forçadamente, e não mais do que um faquir, vendo os meus traços finalmente surgindo de trás das bochechas extintas, começo a ficar preocupada e recorro a vocês, leitores amigos, já que o chinelo da minha avó está bem longe daqui e não o verei tão cedo. Que truque, que motivação, que história triste ou alegre vocês contam a si mesmos para que uma maçã, ou mesmo uma fatia de pudim caramelizado, sejam bem-vindos? Suspiro...

11.7.06

el regador

El regador es una mentira de lluvia que yo tengo de decir a las flores todas las mañanas.