20.11.09

Fragmentos

Eu sei, de vez em quando vem a guerra porque não somos somente paz. Mas escute, amor: a guerra é lá fora, contra quem quiser pisar na sua cabeça. Eu não quero. Eu sou fraca. O amor é fraco. O amor já se entregou. E se isso não tiver graça, eis a hora de partir, pois não é amor o que você procura. Eu só posso lhe oferecer a experiência assustadora e aterrorizante de ser amado.

E se existe alguma guerra é essa: meus dedos em sua pele, delicadamente, arrancando da superfície o que nem você gostaria de ver em si mesmo. Pois está vendo esses dedos? São eles que fazem carinho quando o mundo nos dá vontade de encolher num canto do sofá e dormir chorando... O Outro não pode amar aquilo que Eu não legitimo, não pode! Essa é a guerra! O risco de descobrir-se sem vestes, fraco, humano como qualquer outro, e ainda assim amado. É tão exposto quanto nascer, e não saber como será o mundo... assim como, nu e frágil, não saber o peso daqueles olhos em você.

Hoje eu quis inventar uma outra palavra, não pena. Que em pena a perspectiva é vertical. Em pena, sou eu olhando para baixo, e eu uma outra que traduzisse assim: eu olhando para dentro. Então eu assisto àquilo, olhando um cadáver ainda morno e digo sim, sim, ele tinha dentes muito bonitos, sim. Mas não fui eu que inventei a morte, não fui, a culpa não é minha. Eles dizem: alimente-se bem, beba pouco, não fume. Não fui eu que inventei isso de a morte entrar pela boca. É uma lei natural. Tudo o que é só corpo, pele ou matéria está se desgastando: o guarda-roupa, a Brigitte Bardot, tudo.

Então, o que se salva senão o intangível, senão os gestos que construímos em silêncio, de olhos fechados? E de olhos fechados, sonhei que você voltava dessa guerra e entrava embaixo de minhas cobertas: era o lugar mais quente depois que nada disso importava mais. Eu te abraçava bem forte, sem nada perguntar, porque o modo como você aquecia os meus pés friorentos era mais bonito do que tudo, tudo.

32 comentários:

Alaor disse...

Impressionantemente lindo. Até mais lindo do que o habitual. Esse teu texto veio lá de dentro, do coração secreto, das coisas que a Ritinha tem guardada e que, de tão bonitas, às vezes se escapam pelos dedos e mostram uma beleza exagerada, que quase não cabe no mundo. Ser Rita deve ser tão, mas tão bonito. Obrigado por você ser Rita, Rita, e por compartilhar isto com a gente. Muito amor pra você, sempre.

Me Barboza disse...

Vc tem o dom maravilhoso de colocar o sentimento em palavras que nos emocionam e mostra toda força que há na fragilidade humana.
Obrigada por compartilhar este dom comigo e com todos!
Abraço repleto de admiração!!!

Guilherme R. Fauque disse...

Muito bom teu blog! Parabéns!

Anônimo disse...

Cara, tu é muito engraçado! Foi genial rsrs.

Gabriela Maria disse...

Que lindo..

Gabriela disse...

É que o calor aquece o coração, frio da ausência, da saudade, do (des)amor.

Mayra disse...

Menina, acho que te amo.

Roberto Borati disse...

rita, vocÊ escreve muito, muito bem!

não é a toa que a chamei de rita apoena-poema.


quanto ao post, essa guerra é incosntante, cansa por diversas vezes por sinal...

Priscylla Lins disse...

Muito lindo, Rita!
Seus textos me encantam!
Parabéns, continue tocando nossas almas e corações com a simplicidade e genialidade de suas palavras!

Evellen Libni disse...

me sinto tão melhor quando entro no seu blog e vejo que com simples palavras você faz do mundo um imenso colorido de rosas. Obrigada por me dar o prazer de compartilhar coisas, tão lindas.

Bjo.

lorrayne t. disse...

Tudo que se escreve sobre o amor soa delicado ao mesmo tempo que parece tiro em noite de lua cheia.
E o teu talento sempre foi admirável.

Anônimo disse...

Que coisa bonita!

Giulia B disse...

Há algum tempo que tenho seguido o seu blog. Gosto muito da maneira que escreve e vê o mundo. A única crítica que lhe faço é a respeito da nova foto. Acho que não traduz o que você é. A foto antiga tinha o mesmo encanto que os seus textos e poemas. Parabéns!

Beta de Felippe disse...

Também tenho um texto com esse título, lá no 'Alma em Punho'. Tão bom voltar a te ler, ler coisas novas, suas coisas. :)

Rapha disse...

Você é uma linda ! LINDA !

Gaby Soncini disse...

Suspiros, olhar, sorriso, emoção, lágrima...

Que texto lindo!
Entrou bem fundo aqui no coração.

Grande Beijo.

✌ Luana disse...

Caramba, Ritinha, só tenho uma coisa a dizer: lindo, lindo e lindo.


*--*

Andréa Pinho disse...

Belíssimo texto parabéns, você tem um dom divino =)

:*

- Hannah disse...

lindo lindo lindo. me encantas :)

Marcelo - Floripa Angels disse...

Espetacular parabéns!!! Até dei um RT no twitter (via @bookess).
Abraços
Marcelo

Mariana Cela disse...

Dos mais lindos.
;***

Maria Clara disse...

Esse é com certeza um dos textos mais bonito desse blog. Parabéns.

Natália disse...

e agora, quando eu pensava que tinha perdido toda a minha fé, eu vejo que a não perdi: ela está aqui, ali.. nas pequenas coisas. Nas letras, na poesia. Obrigada.

cláudia i, vetter. disse...

és inigualável.

Anônimo disse...

Rita querida, nem sei o que dizer. Você é simplesmente maravilhosa! Posso dizer que já está aqui na minha lista de escritores favoritos, bem ao lado de Machado! Te desejo muita sorte, pois há tempos não lia textos tão simples e tão repletos de sentimento como os seus, capazes de nos sensibilizar profundamente!
Quando está prevista o lançamento do teu livro?
abraços, de uma grande fã!
antimonotonia.yingyang@gmail.com

bia martins disse...

Unir, somar, dividir...
Alma acariciada por ti!

Bjo flor! ^^

Maurinho disse...

Adoro quando vc escreve menina, so nao gosto quando apaga o que me escreve antes que eu poss responder. Mande-me noticias se for possivel

un besito

Débora Oliveira disse...

Suspiros.

Tekah G. disse...

MARAVILHOSO! Conseguiu traduzir em palavras uma das sensações mais doces...

"O Outro não pode amar aquilo que Eu não legitimo, não pode! Essa é a guerra! O risco de descobrir-se sem vestes, fraco, humano como qualquer outro, e ainda assim amado." Essa parte foi a que mais gostei... me identifico com seu estilo de escrita, ler Rita Apoena torna meus dias mais doces :)

Por Ele. disse...

"E se existe alguma guerra é essa: meus dedos em sua pele, delicadamente, arrancando da superfície o que nem você gostaria de ver em si mesmo."

Eita, o amor descobre, desnuda, arranca superficialidade e depois dessa "luta", cuida. Etapas que nem todos estão dispostos a seguir...

Gostei MUITO desse texto!

Kell Edington disse...

Ain que vontade de te plagiar, rs. Simplismente lindo...

Rê Marra♥ disse...

Incrível. É gostoso ler teus textos. Mesmo quando são fortes, são doces.